quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os livros que devoraram o meu pai

Célia Gil
Cruz, Afonso (2010). Os Livros que Devoraram o Meu Pai. Alfragide: Caminho.

Integrado no Plano Nacional de Leitura, na categoria de Leitura Autónoma (3.º Ciclo), Os Livros que Devoraram o Meu Pai é um livro imperdível e que pode ser lido por várias gerações.
Com um sentido de humor notório e uma criatividade linguística que prendem o leitor nas primeiras linhas, é impossível não se envolver pelo jovem Elias Bonfim, que nos conduz em aventuras imperdíveis. Quando fez doze anos, Bonfim foi presenteado com a chave do sótão, onde estavam os livros do seu pai, que desaparecera por um livro adentro, A Ilha do Dr. Moreau. O pai deixara instruções precisas, uma verdade revelada pela avó, cujas palavras “vinham cheias de cabelos brancos”, na sua voz um pouco “amarrotada”. O pai não fora apenas um colecionador, mas um leitor voraz, que acaba por incutir no filho o interesse pela leitura.
Como seria este sótão? Que livro começou Bonfim por ler? Afinal, até que ponto a personagem do livro A Ilha do Dr. Moreau, Edward Prendick, é real? E quem seria o Dr. Zirkov, “que usava uns olhos pequeninos escondidos atrás duns óculos” e que também era mencionado no enigmático livro? Como terá decorrido o encontro de Bonfim com o Dr. Zirkov? Muitas são as questões que se vão colocando ao leitor à medida que avança na leitura, cada vez mais absorvido, cada vez mais devorado pelo livro.
E quando, a par destas aventuras emocionantes, há uma Beatriz na escola, cujos cabelos negros “deslizavam pelos ombros, como o cheiro do café desliza pela chávena”, a quem Bonfim não resiste, tal como o Bombo, o jovem das histórias chinesas.
Não posso terminar sem apresentar um excerto cativante:
«Uma biblioteca é um labirinto (…) Porque nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-enes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias (…) Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca.»
Usa-se muito a expressão “devorar um livro” para marcar aquelas obras que queremos ler até ao fim sem parar. Foi muito divertido pensar na hipótese inversa, porque também o livro pode devorar o leitor, prendendo-o e impedindo-o de deixar com facilidade a história por que foi envolvido.


Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014.

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

2 comentários:

  1. Célia, não conheço, mas fiquei muito interessada e vou comprar. Beijinhos

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    1. É ótimo e tem um livro, na minha opinião, ainda melhor - "Nem todas as baleias voam". Bjs

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